domingo, 8 de março de 2015

ADORÁVEL DOM-JUAN

Adorável Dom-Juan
(Renaissance Summer)
Clare Richards

 

Raios de luar incidem sobre as águas límpidas do riacho onde Pamela e Rob banham-se deliciados, criando um cenário de conto de fadas.
O clima de magia arrasta-a irresistivelmente para os braços desse homem charmoso que ela já ama com paixão, varrendo para longe temores e preconceitos. Mas o que acontecerá quando o sonho terminar? Conseguirá voltar incólume à insípida segurança de sua vida? Poderá esquecer tudo e seguir vivendo sem Rob?




CAPÍTULO I


Eram apenas dez horas da manhã quando Pamela Stewart chegava ao pátio de estacionamento, já quase lotado, do parque particular onde se realizava o Festival Anual da Renascença. Ao volante do seu pequeno carro esporte, sorriu, contente, ao ouvir a voz grave do locutor de rádio anunciar que o bom tempo continuaria a presentear Maryland, que já apresentava um céu muito azul, sem nuvens, e muito sol.
Vestia blusa branca de mangas bufantes e uma ampla saia estilo jardineira, confeccionada em tecido escuro e arrematada com debruns de cores vivas — o traje típico de uma camponesa do período renascentista. Seus cabelos dourados caíam livres por sobre os ombros, e uma delicada coroa de flores silvestres emoldurava-lhe o rosto de traços aristocráticos, valorizados apenas por uma maquilagem leve. Sapatinhos de cetim negro, bordados com vidrilhos e imitações de pérolas, complementavam o traje, um par de brincos de ouro em forma de pequenas argolas davam um toque final à indumentária idealizada com simplicidade e bom gosto.
Encontrando uma vaga, estacionou e, antes de descer do carro, mirou-se no espelho retrovisor e retocou o batom dos lábios, satisfeita com a própria imagem.
Pamela sentia-se muito feliz por estar participando, pela primeira vez ativamente, do Festival Anual da Renascença; nos anos anteriores conformara-se em ser mera espectadora, mas sempre invejando as pessoas que mergulhavam de corpo e alma no passado para viver, durante cinco fins de semana, completamente distantes da realidade. Achava pitoresco andar vestida naquelas roupas exóticas; sempre gostara de fantasias, e aquele período seria ideal para ela dar asas à imaginação, recriando toda a emoção e magia que haviam permeado o dia-a-dia das pessoas no longínquo século XVII. Permaneceu um longo tempo observando o acampamento dos ciganos, no prado verdejante que circundava o parque, uma das atrações mais concorridas daquela festa inusitada, que oferecia ainda aos curiosos visitantes barracas de comidas típicas, palcos improvisados ao ar livre, apresentações de menestréis e trovadores, concertos de música sacra e renascentista, exposição de obras da época e projeção de slides.
Como todos se vestiam a caráter, a festa propiciava sempre um espetáculo de cores e formas, fazendo com que os visitantes acorressem com prazer e curiosidade para assistir às apresentações, comprar lembranças e comer as delícias vendidas nas lindas barracas coloridas. Encaminhando-se para o interior do parque, Pamela encontrou mágicos com cartolas pretas, auxiliados por jovens vestidas com roupas brilhantes e de cores fortes, que realizavam seus truques, tirando das cartolas coelhos brancos, baralhos, tiras de tecidos, correntes que se ligavam e desligavam misteriosamente. Como eles conseguiam fazer tantas mágicas diferentes sem que o público lhes descobrisse os macetes?
Mercadores arrumavam em ritmo acelerado, dispondo as mercadorias nos balcões e prateleiras de modo a torná-las atraentes aos olhos dos visitantes.
Sob pesadas roupas de veludo colorido, os menestréis afinavam os instrumentos com as vozes dos cantores, enquanto floristas arrumavam os mais lindos e perfumados buquês em vistosas cestas de vime.
Através da multidão, Pamela avistou sua barraca e lembrou-se de como a montara.
Para fincar as estacas e os módulos, recorrera à ajuda de outros participantes do festival. Depois, pintara a grande placa que anunciava os produtos que venderia durante o festival: sidra e bolo de rum.
No entanto, o trabalho não acabara ali: agora, Pamela tinha de limpar tudo e arrumar as mercadorias nas prateleiras. Aliás, se não se apressasse, corria o risco de não participar do primeiro dia da festa.
Assustada com tal possibilidade, dirigiu-se de imediato para a barraca. No caminho, deteve-se ao escutar alguém falando numa linguagem quase incompreensível.
— Que velhaco! — dizia um espadachim moreno, em inglês arcaico.
Curiosa, Pamela aproximou-se do local da representação.
Um grupo de artistas da festa reunira-se para assistir ao duelo dos dois esgrimistas.
— Que vergonha! — vociferou o espadachim de cabelos ruivos. — Você roubou um beijo da minha irmã e vai pagar pela desonra que causou a ela e a mim. Não gostei disso.
— Nem eu. Ela não sabe beijar, nem tem lábios doces — retrucou o moreno, com um sorriso malicioso sob os bigodes negros.
Divertido, o público pôs-se a aplaudir de modo caloroso.
Já perto dos atores, Pamela avaliou que o moreno era de fato muito simpático e charmoso.
De cabelos e bigodes escuros, pele bronzeada e corpo atlético, ele exercia um magnetismo mágico sobre todos os que se espalhavam ao redor.
No transcorrer da semana, enquanto preparava o local para a montagem da barraca, Pamela já o admirara de longe diversas vezes.
Vestindo uma roupa de malha preta e botas de cano longo, ele era a recriação perfeita de um garboso herói medieval.
Simulando discussões, como aquela a respeito do beijo roubado à irmã de um deles, os dois procuravam fazer com que a representação parecesse real, antes de cruzarem as espadas.
Apesar de ter consciência de que aquela briga não passava de uma farsa, Pamela sentiu uma pontinha de preocupação quando os dois iniciaram a batalha, as espadas rebrilhando no ar.

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